Máscara de tecido comum oferece proteção?

Já adianto que para escrever esse artigo utilizei um mínimo de tecnologia e um pouco de raciocínio lógico. Além do mais, não vou afirmar nada, a conclusão sobre a eficácia da máscara de tecido fica por sua conta.

Máscara de tecido comum – o novo traje

Por determinação política, as máscaras se tornaram um item de uso obrigatório para sair às ruas, ao menos em São Paulo. Isso gerou um novo tipo de negócio, sendo que em qualquer loja agora encontramos máscaras de tecidos.

Normalmente prefere-se a máscara que permita uma melhor respiração, não é mesmo? Mas será que a máscara de tecido comum oferece algum tipo de proteção efetiva? Vamos pensar a respeito.

O vírus covid-19

Como outros vírus, ele também segue um padrão. Vale citar que o vírus não é um ser vivo, mas uma partícula. Sua estrutura pode ser destruída por raios UV, então esterilização com lâmpadas UV (que emitem também o UV-C) são bastante eficientes, mas deve-se ter cautela para não ficar exposto aos efeitos nocivos dessas lâmpadas. Apenas 2 segundos de exposição é o suficiente para esterilização com UV, que destrói também partículas suspensas.

O vírus tem o tamanho de 20 a 300 nanômetros, que seria a fração de 0,000020 milímetros para o menor vírus. Para efeito de comparação, um fio de cabelo tem entre 60 e 120 micrômetros, equivalente a 0,060 milímetros. Essas informações de medidas serão importantes para a conclusão.

Microscópio digital

Para escrever esse artigo, utilizei um microscópio digital com ampliação de 500 vezes. Não dá pra mostrar nem uma bactéria com isso, mas dá pra mostrar informações importantes. Para ter uma ideia do que representa essa ampliação, peguei como referência 1 milímetro no paquímetro, que é uma ferramenta para medição de precisão. Veja:

Máscara de tecido comum - 1mm

Essa não é a ampliação máxima, senão não daria para perceber que se trata de uma medição, mas serve como referência.

Imagine esse espaço de 1 milímetro dividido por 1.000.000. Se imaginar a divisão por 10, provavelmente já seria difícil encaixar as divisões nessa imagem ampliada. Se tiver uma régua por perto, use-a como referência para 1mm.

Fios de cabelo no microscópio utilizado ficaram assim:

fio de cabelo

Trama de uma máscara de tecido comum

Essas demonstrações anteriores foram apenas para ter alguma referência do quão pouco é uma ampliação de 500 vezes. Agora vejamos a minha máscara de tecido comum nesse microscópio, dentro do intervalo de 1 mm:

Máscara de tecido comum - trama dentro de 1mm

Ao que tudo indica, o espaçamento da trama é de 0,15 mm. Agora vamos à máxima ampliação do tecido (500x):

Máscara de tecido comum - trama com 500x de ampliacão

Esse é o espaçamento entre a trama do tecido, bastante vasto. Agora vamos falar sobre coador de chá.

Coador de chá

O papel do coador é reter a erva, deixando passar apenas o líquido. Se a trama do coador fosse da espessura dos furos do escorredor de macarrão, o chá seria coado adequadamente?

A máscara de tecido tem uma trama tão aberta que respiramos até tranquilamente, usando-a o dia todo. O ar entra e sai com facilidade, formando “correntes de ar” entre as tramas, o que forma um funil para os vírus passarem aos montes. A diferença é de 1.000.000 pra 100, o que não parece dar muita proteção. Mas a comparação do coador de chá e o escorredor de macarrão não é proporcional. Seria mais alguma coisa como um coador de chá e uma grade de galinheiro; ou muito mais. E pior, não há obstáculos entre a entrada e a saída do fluxo de ar. Repare na trama de uma máscara “de verdade”, dessas de hospital (não é a azul):

máscara hospitalar

Compare com o fio de cabelo. A trama é extremamente fina e além disso tem múltiplas camadas, gerando obstáculos na entrada da partícula. Apesar de parecerem menos seguras, é exatamente o oposto.

Máscara para proteger-se ou proteger outrem?

A máscara de tecido comum oferece mais segurança para outrem do que para si. Isso porque se espirramos na máscara, a densidade dos perdigotos o impedem de ultrapassar a máscara, evitando aquele borrifo nojento que vemos em vídeos de espirros. Porém, se alguém sem máscara espirrar próximo a alguém com máscara, entre as partículas que se dispersarão no ar, certamente alguma coisa deve passar pela máscara de tecido.

 

Conclusão

A conclusão fica por sua conta, mas gostaria apenas de aconselhar a não confiar apenas na máscara, se é isso que tem feito. Passar a mão na máscara para coçar o rosto, tirá-la e colocá-la de novo e simplesmente sair na rua uma única vez já está garantido algum tipo de contaminação.

 

Revisão: Ricardo Amaral de Andrade

Djames Suhanko

Djames Suhanko é Perito Forense Digital. Já atuou com deployer em sistemas de missão critica em diversos países pelo mundão. Programador Shell, Python, C, C++ e Qt, tendo contato com embarcados ( ora profissionalmente, ora por lazer ) desde 2009.